Realeza de outro mundo e o ponto de vista humano
Realeza de outro mundo e o ponto de vista humano: ensinamentos do Evangelho

Há frases que atravessam os séculos carregando, em poucas palavras, um convite silencioso à reflexão. Uma delas está no diálogo entre Jesus e Pilatos, momentos antes da crucificação: “Meu reino não é deste mundo.” À primeira vista, parece apenas a resposta serena de um condenado diante de seu juiz. Mas, quando nos detemos com calma sobre esse episódio, percebemos que ali está contida uma das chaves mais importantes para compreendermos o sentido da existência terrena e o lugar que ocupamos, como espíritos em evolução, dentro da vasta obra da Criação.
Allan Kardec dedica o Capítulo II de O Evangelho Segundo o Espiritismo a esse tema, sob o título “Meu Reino não é deste mundo”. Neste artigo, vamos caminhar juntos por dois tópicos desse capítulo: “A realeza de Jesus” e “O ponto de vista”. A proposta é simples e, ao mesmo tempo, profunda: entender de que tipo de realeza fala Jesus e como a mudança de perspectiva sobre a vida – da visão estritamente terrena para a visão espiritual – transforma nossa relação com o sofrimento, com as perdas e com as pequenas e grandes batalhas do cotidiano.
Vivemos em uma época marcada pela pressa, pela busca incessante por reconhecimento, sucesso material e validação imediata. Nunca foi tão fácil comparar nossa vida com a de outras pessoas, nem tão comum sentir que estamos sempre atrás de alguma coisa. É exatamente nesse contexto que os ensinamentos trazidos por Kardec, a partir das palavras de Jesus, se revelam de extraordinária atualidade. Convido você a refletir comigo sobre o que significa ter um “reino que não é deste mundo” e como isso pode, de fato, aliviar o peso das aflições que carregamos.
Ao longo dos próximos parágrafos, procurarei caminhar devagar por cada um desses pontos, sem pressa, como convém a um assunto que toca diretamente o modo como vivemos nossos dias e enfrentamos nossas dores. Não pretendo esgotar o tema, tampouco apresentar respostas definitivas, mas sim oferecer um convite sincero à reflexão, algo que a própria doutrina espírita sempre nos propõe: pensar com liberdade, comparar ideias e chegar a nossas próprias conclusões, sempre com o coração aberto e a razão desperta.
A verdadeira realeza: aquela que o tempo não apaga
Quando ouvimos a palavra “rei”, é quase automático pensarmos em coroas, tronos, exércitos e territórios. Essa é a realeza que conhecemos pela história: o poder temporal, aquele que se conquista, se defende e, mais cedo ou mais tarde, se perde. Os impérios mais grandiosos da Antiguidade, que pareciam eternos aos olhos de seus contemporâneos, hoje são estudados como capítulos encerrados dos livros de história. É sobre essa forma de realeza que Pilatos, representante do poder romano, certamente pensava ao interrogar Jesus.
Mas o item 4 do capítulo nos apresenta outra possibilidade de realeza, bem menos evidente, porém infinitamente mais duradoura: a realeza do mérito, do gênio, da influência que uma pessoa exerce sobre o pensamento e o comportamento da humanidade ao longo do tempo. É esse o sentido em que costumamos dizer que alguém é “o rei” ou “a rainha” de determinada arte, ciência ou área do conhecimento. Não se trata de uma coroa que alguém coloca sobre a própria cabeça, mas de um reconhecimento que a posteridade concede, de forma espontânea, a quem verdadeiramente contribuiu para o progresso moral e intelectual da humanidade.
Essa realeza moral tem uma característica notável: ela não depende de exércitos, de riquezas ou de posições de destaque em vida. Muitas vezes, aliás, quem a exerce sofreu perseguição, pobreza e rejeição enquanto esteve entre nós, como foi o caso do próprio Jesus. E, ainda assim, essa forma de influência atravessa gerações, sendo louvada e reverenciada muito depois de sua partida, algo que raramente acontece com os detentores do poder temporal, cuja memória, não raro, é maculada pelas gerações seguintes. Basta pensarmos em quantos governantes poderosos de sua época foram, com o passar dos séculos, esquecidos ou lembrados de maneira crítica, enquanto pensadores, artistas e mestres espirituais continuam vivos na memória e na prática de milhões de pessoas.
É justamente por isso que a realeza atribuída a Jesus ultrapassa qualquer forma de poder político ou territorial. Ele não governou nações nem comandou tropas, mas sua palavra segue orientando a consciência de multidões, muito depois de seu desaparecimento físico. Essa é a “realeza” que ele reivindica diante de Pilatos: não a de um monarca terreno, mas a de quem exerce, pela força do exemplo e do ensinamento, uma influência que a morte não tem poder de apagar. Isso nos convida a refletir sobre o próprio conceito de sucesso que cultivamos em nossos dias, tão frequentemente associado a bens materiais, cargos e visibilidade passageira, quando existe uma forma de “grandeza” muito mais sólida e significativa, ligada ao que fazemos de bom e verdadeiro pelos outros.
Há, nessa distinção, um convite silencioso a repensarmos nossos próprios critérios de valor. Quantas vezes, em nossa caminhada pessoal, medimos nosso próprio mérito, ou o de quem nos rodeia, pelos padrões da realeza terrena: o cargo que ocupamos, o quanto acumulamos, o reconhecimento imediato que recebemos? O ensinamento contido nesse trecho do Evangelho nos propõe outra régua de medida, mais discreta, porém mais duradoura: aquela que avalia o valor de uma vida pelo bem que ela foi capaz de semear, ainda que esse bem não receba aplausos imediatos, nem seja registrado nas manchetes do seu tempo.
Duas maneiras de olhar para a mesma vida
O segundo tópico que vamos explorar, “O ponto de vista”, nos traz uma reflexão de rara sensibilidade sobre como encaramos a existência terrena. O item 5 apresenta uma comparação simples, mas muito eficaz: imagine alguém que caminha pelo centro de uma grande cidade. Para essa pessoa, tudo parece imenso – os prédios, as pessoas em posições de destaque, os acontecimentos do dia a dia. Agora imagine essa mesma pessoa subindo ao alto de uma montanha e olhando para essa cidade à distância. As mesmas construções que pareciam gigantescas tornam-se pequenas, quase indistintas, diluídas na paisagem mais ampla.
Essa metáfora ilustra, de maneira bastante concreta, a diferença entre encarar a vida exclusivamente pelo prisma terreno e encará-la sob a perspectiva da vida espiritual, que é infinitamente mais ampla. Quando colocamos toda a nossa atenção e expectativa apenas no presente, no que podemos ver, tocar e conquistar aqui, cada perda, cada decepção, cada injustiça sofrida ganha proporções desmedidas, capazes de transformar a existência numa fonte constante de angústia. É como se déssemos a tudo que vivemos o mesmo peso e a mesma urgência, sem distinguir o que é realmente essencial daquilo que é passageiro.
Por outro lado, quando ampliamos essa visão, reconhecendo que a vida no corpo é apenas uma etapa dentro de uma existência muito mais longa – a existência do espírito -, os problemas cotidianos não desaparecem, mas passam a ser vividos de outra forma. Kardec descreve essa passagem terrena como uma “breve estada num país ingrato”, palavras que não pretendem diminuir o valor da vida, mas sim colocá-la em sua justa medida. Trata-se de uma questão de escala: as dificuldades continuam existindo, porém deixam de ocupar todo o horizonte da nossa atenção, porque passamos a enxergá-las como parte de um percurso mais amplo, e não como o destino final de tudo.
Essa mudança de perspectiva também transforma nossa relação com a própria morte. Para quem vive centrado apenas na existência material, a morte costuma representar um fim absoluto, um mistério aterrorizador. Já para quem compreende a continuidade da vida espiritual, ela se torna, nas palavras do capítulo, uma porta que se abre para a libertação, o momento de transição para um estado de maior serenidade. Essa certeza, quando genuinamente incorporada ao modo de viver, não elimina a dor natural diante da perda de entes queridos, mas suaviza o desespero e o sentimento de vazio absoluto que muitas vezes acompanha esses momentos.
O equilíbrio necessário entre o presente e o porvir
Uma leitura apressada dos itens anteriores poderia levar a uma conclusão equivocada: já que a vida terrena é passageira e de importância relativa diante da eternidade, para que nos preocuparmos com ela? O item 6 se antecipa a essa possível confusão e a esclarece com muita propriedade. Reconhecer que nossa existência atual é temporária não significa que devamos negligenciar as responsabilidades e os cuidados do presente. Pelo contrário: o próprio instinto de conservação e de busca pelo bem-estar, que a natureza nos concedeu, nos impele a agir, trabalhar e melhorar as condições em que vivemos.
O texto usa uma imagem simples e muito eficaz para explicar esse ponto: ninguém, ao sentir um espinho sob a mão, deixa de retirá-la para evitar a dor. Da mesma forma, mesmo sabendo que nossa passagem pela Terra é limitada, continuamos buscando conforto, segurança e progresso material, porque essa busca faz parte das leis naturais que regem nossa evolução. O que muda, quando adotamos essa visão mais ampla da existência, não é o empenho com que vivemos o presente, mas a intensidade emocional com que reagimos aos contratempos. Aquele que mantém viva a certeza do porvir consegue relativizar os insucessos, sem que estes deixem de importar, mas sem que se tornem motivo de desespero ou amargura permanentes.
Vale destacar também uma afirmação importante presente nesse trecho: Deus não condena os prazeres legítimos da vida terrena. O que se condena é o abuso desses prazeres, quando eles passam a ser buscados em detrimento dos valores da alma, ou seja, quando a busca pelo conforto material se sobrepõe completamente aos cuidados com o caráter, com a bondade, com a justiça e com o próximo. Essa distinção é fundamental para afastarmos qualquer interpretação de que a doutrina espírita prega o desprezo pela vida ou uma espécie de resignação passiva diante das dificuldades. Muito pelo contrário: trata-se de viver bem o presente, mas sem fazer dele o único e absoluto critério de felicidade ou de valor pessoal.
A comparação entre o rico que perde uma pequena quantia sem se abalar e o pobre que perde tudo o que possui e se desespera, também presente nesse trecho, ilustra com muita clareza essa diferença de atitude interior. Não se trata de quantidade de posses materiais, mas de onde depositamos nossa segurança mais profunda. Quem coloca no infinito da vida espiritual sua verdadeira riqueza consegue atravessar as perdas terrenas – por mais reais e dolorosas que sejam – sem que estas comprometam sua paz interior de maneira definitiva.
Ecos desses ensinamentos no mundo contemporâneo
Embora essas reflexões tenham sido registradas há mais de cento e cinquenta anos, é impressionante perceber como permanecem atuais diante dos desafios que vivemos hoje. Vivemos numa era de hiperconexão, em que as redes sociais nos expõem constantemente a versões idealizadas da vida alheia. É fácil, nesse cenário, cair na armadilha descrita no item 5: dar proporções desmedidas a pequenas frustrações, comparações e ambições insatisfeitas, transformando o cotidiano numa sucessão de pequenas angústias, exatamente como descreve o texto ao falar do “engano”, da “decepção” e da “vaidade ferida”.
A ansiedade generalizada que tantos especialistas em saúde mental apontam como uma das marcas de nosso tempo tem, entre suas raízes, justamente essa dificuldade em relativizar as dificuldades cotidianas diante de um horizonte mais amplo de sentido. Quando a existência é vivida como se fosse o único e definitivo capítulo da nossa história, cada obstáculo assume um peso avassalador. A perspectiva espírita, ao devolver à vida terrena seu caráter de etapa – importante, mas não exclusiva – dentro de um processo evolutivo mais amplo, oferece um contraponto valioso a essa lógica de urgência permanente que tanto adoecimento psíquico tem gerado em nossa sociedade.
Também é possível traçar um paralelo entre a “realeza do mérito” descrita no item 4 e as discussões contemporâneas sobre o que verdadeiramente significa deixar um legado. Vivemos tempos em que sucesso é, com frequência, medido por métricas passageiras: número de seguidores, patrimônio acumulado, visibilidade na mídia. Esses critérios, por mais que tenham valor prático em determinados contextos, dificilmente resistem à passagem de poucas décadas. Já as contribuições genuínas ao bem comum, à educação, à arte e à elevação moral da humanidade, ainda que menos visíveis no curto prazo, tendem a permanecer influentes muito além da vida de quem as realizou, exatamente como observamos em relação a tantas figuras cuja obra continua inspirando pessoas, mesmo décadas ou séculos depois de seu desaparecimento físico.
O convite à ampliação do olhar
O item 7 encerra esse trecho do Evangelho trazendo uma síntese esclarecedora sobre o papel do Espiritismo diante dessas questões. Segundo esse ensinamento, a doutrina espírita amplia nosso pensamento e revela que a vida atual não é um fragmento isolado e desconectado de tudo o mais, mas parte de um conjunto harmonioso, que envolve todas as existências de um mesmo espírito, todos os espíritos de um mesmo mundo e todos os mundos entre si. Essa é, talvez, uma das contribuições mais valiosas da doutrina para o pensamento humano: a ideia de solidariedade universal, que decorre diretamente da compreensão de que somos todos parte de uma mesma grande obra em constante evolução.
Essa visão de conjunto nos ajuda a compreender por que tantas situações da vida, quando observadas isoladamente, parecem injustas ou incompreensíveis. Um sofrimento aparentemente imerecido, uma dificuldade que se arrasta sem explicação aparente, um encontro ou desencontro que parece fruto do puro acaso: tudo isso ganha outro sentido quando inserido dentro de um panorama mais amplo, que ultrapassa os limites de uma única existência corporal. É importante lembrar, contudo, que essa compreensão não elimina nossa responsabilidade sobre as escolhas do presente, mas oferece um contexto mais generoso para compreendermos os percalços da caminhada.
Vale reconhecer, como o próprio texto sugere, que essa forma ampliada de olhar para a existência não poderia ter sido plenamente compreendida pelos contemporâneos de Jesus, o que explica por que ele reservou a revelações posteriores o aprofundamento dessas questões. Isso nos convida a uma postura de humildade diante do conhecimento: assim como a humanidade daquela época ainda não estava preparada para compreender certos ensinamentos em sua totalidade, é possível que também nós, hoje, ainda estejamos caminhando rumo a compreensões mais amplas do que atualmente conseguimos alcançar. Essa consciência nos mantém abertos ao aprendizado contínuo, sem a pretensão de que já dominamos todas as respostas.
Temas profundamente interligados
Ao longo deste artigo, caminhamos por dois temas que, à primeira vista, poderiam parecer distantes um do outro, mas que se revelam profundamente interligados: a natureza da verdadeira realeza de Jesus e a importância de ampliarmos nosso ponto de vista sobre a existência terrena. Compreendemos que a realeza reivindicada por Jesus não tem relação com tronos ou territórios, mas com a força moral de seus ensinamentos, capazes de atravessar os séculos e continuar orientando corações e consciências muito além de sua época.
Vimos também como a mudança de perspectiva – de uma visão estreita, centrada apenas no presente, para uma visão ampla, que reconhece a continuidade da vida espiritual – transforma profundamente nossa maneira de enfrentar as dificuldades cotidianas. Não se trata de negar ou minimizar o valor da vida terrena, tampouco de nos desobrigarmos das responsabilidades do presente, mas de encontrarmos o equilíbrio necessário entre viver bem o hoje e manter viva a esperança e a fé no porvir.
Que estas reflexões, ancoradas nos ensinamentos trazidos por Allan Kardec a partir das palavras de Jesus, possam servir de bússola nos momentos em que as dificuldades da vida parecerem maiores do que realmente são. Que consigamos, como sugere a bela imagem da montanha, encontrar de tempos em tempos a altura necessária para observar nossa própria existência com mais serenidade, reconhecendo nela apenas uma etapa – preciosa, mas passageira – de uma jornada muito mais longa e cheia de significado. E que essa compreensão nos aproxime, cada vez mais, do verdadeiro sentido da fraternidade universal, lembrando-nos de que, para além das diferenças que a vida terrena nos impõe, somos todos parte de uma mesma e grandiosa obra em constante evolução.
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